O colesterol é um dos temas mais mal compreendidos da medicina. Muitas pessoas com colesterol "alto" no exame se preocupam desnecessariamente, enquanto outras com colesterol aparentemente "normal" têm risco cardiovascular elevado. Vamos esclarecer o que realmente importa.
O que é o colesterol?
O colesterol é uma molécula lipídica produzida pelo fígado e obtida pela alimentação. Ele é essencial para o organismo: faz parte das membranas celulares, é precursor de hormônios (testosterona, estrogênio, cortisol) e da vitamina D. O problema não é ter colesterol — é tê-lo em excesso ou no perfil errado.
HDL, LDL e triglicerídeos: o que cada um significa
LDL – o "colesterol ruim"
O LDL (lipoproteína de baixa densidade) transporta o colesterol do fígado para as células. Em excesso, deposita-se nas paredes das artérias, formando placas de aterosclerose — o principal mecanismo do infarto e AVC. Quanto menor o LDL em pessoas de alto risco, melhor.
HDL – o "colesterol bom"
O HDL (lipoproteína de alta densidade) retira o colesterol das artérias e o leva de volta ao fígado para ser eliminado. É protetor cardiovascular: quanto maior o HDL, melhor. HDL baixo (<40 em homens, <50 em mulheres) é um fator de risco independente.
Triglicerídeos
São gorduras derivadas principalmente do consumo de açúcar, álcool e carboidratos refinados. Triglicerídeos elevados (acima de 150 mg/dL) aumentam o risco cardiovascular, especialmente quando combinados com HDL baixo.
| Exame | Desejável | Limítrofe | Elevado |
|---|---|---|---|
| LDL | < 100 mg/dL* | 100–129 | ≥ 130 |
| HDL | ≥ 60 mg/dL | 40–59 | < 40 |
| Triglicerídeos | < 150 mg/dL | 150–199 | ≥ 200 |
*O alvo de LDL varia conforme o risco cardiovascular individual. Pacientes de muito alto risco (pós-infarto) devem manter LDL < 50 mg/dL.
Os principais mitos sobre o colesterol
Mito 1: "Colesterol total normal significa que estou seguro"
Falso. O colesterol total isolado tem pouco valor preditivo. O que importa é o perfil lipídico completo (LDL, HDL, triglicerídeos) interpretado em conjunto com os demais fatores de risco (pressão, diabetes, tabagismo, histórico familiar).
Mito 2: "Colesterol alto vem só da alimentação"
Falso. Cerca de 70% do colesterol é produzido pelo próprio fígado (endógeno). Por isso, pessoas magras e com alimentação saudável podem ter colesterol alto por predisposição genética — especialmente na hipercolesterolemia familiar.
Mito 3: "Se não tenho sintomas, não preciso tratar"
Perigoso. O colesterol alto não causa sintomas até que ocorra um infarto ou AVC. A aterosclerose se desenvolve silenciosamente por décadas antes do evento cardiovascular. Tratamento preventivo salva vidas.
Mito 4: "Estatina faz mal ao fígado e à memória"
Parcialmente falso. As estatinas são os medicamentos mais estudados da medicina e têm excelente perfil de segurança na maioria dos pacientes. Efeitos colaterais graves são raros. O benefício cardiovascular comprovado supera amplamente os riscos para quem tem indicação.
Como reduzir o colesterol naturalmente
- Substituir gorduras saturadas (carnes gordas, laticínios integrais) por insaturadas (azeite, abacate, nozes)
- Aumentar o consumo de fibras solúveis: aveia, feijão, maçã, cenoura
- Praticar exercícios aeróbicos regularmente — aumenta o HDL
- Eliminar gordura trans (biscoitos recheados, margarinas, salgadinhos)
- Reduzir o açúcar e carboidratos refinados — que elevam triglicerídeos
- Parar de fumar — o tabagismo reduz drasticamente o HDL
- Perder peso se houver sobrepeso ou obesidade
Quando o medicamento é necessário?
Mudanças no estilo de vida são sempre o primeiro passo. Porém, em muitos casos, o medicamento (especialmente as estatinas) é indispensável: pacientes com LDL muito elevado, histórico familiar de doença cardíaca precoce, diabetes, hipertensão grave ou eventos cardiovasculares prévios.
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